"É possível fazer a história do presente ou do quase presente, isto é, de fatos que aconteceram há pouco tempo. É a chamada história imediata. Com ela, o historiador se aproxima do jornalismo. A história imediata é influenciada pelas opiniões e pelas experiências de vida do historiador."

Como foi vista a posse do vice José Sarney?
Ele assumiu em meio a muita desconfiança, pois era bem diferente do presidente eleito. Embora moderado, Tancredo era um nítido adversário do regime autoritário. Sarney rompera com a Arena havia pouco tempo. E como o regime democrático estava dando seus primeiros passos, receava-se que o autoritarismo permanecesse disfarçado, ou até que ocorresse um retrocesso político. Sarney manteve o SNI, o Serviço Nacional de Informações, um órgão que vinha da ditadura, considerando-o adaptável a outro contexto, e isso trouxe críticas. Mas na verdade seu governo acabou garantindo um clima de liberdades democráticas.

O que marcou a política econômica?
Problemas que já existiam antes – descontrole financeiro, inflação enorme, déficit público – custaram ao governo uma grande queda de popularidade. Foi instituído então o Plano Cruzado, com uma nova moeda, como tentativa de reequilibrar a economia e, ao mesmo tempo, restaurar o prestígio de Sarney. Mas as medidas tomadas – aumento de salários e congelamento de preços – se revelaram equivocadas. Ocorreu um transitório momento de euforia, com uma corrida aos bens de consumo, mas a forte demanda abalou o congelamento – a inflação retornaria, com o fracasso do Plano Cruzado. Mas isso não estava ainda claro para a população no final de 1986, por ocasião das eleições: o PMDB conseguiu enorme êxito capitalizando o prestígio do Plano Cruzado. Alguns diziam que poderíamos estar embarcando numa espécie de monopólio do poder pelo PMDB, a exemplo do que ocorria no México com o PRI. Hoje sabemos que isso não aconteceu, pois o PMDB se dividiu e se complicou internamente.

O governo Sarney deu calote na dívida externa?
O final do governo Sarney foi melancólico. O Brasil decretou moratória, quer dizer, deixou de pagar a dívida externa. Ao contrário do que muita gente pensa, isso representou um sério golpe nas finanças do país; foi preciso muito tempo para restaurar o crédito no exterior e se livrar das conseqüências da moratória.

E o que dizer da Constituição de 1988?
A Constituição de 1988 surgiu após longos debates numa Assembléia Constituinte em que o PMDB tinha uma forte bancada, e resultou em um texto controvertido. Como aspecto positivo, há a garantia dos direitos dos cidadãos – por exemplo, o direito de obter informações nos órgãos do Estado, o direito das minorias, dos índios –, como nunca existiu no passado. Do lado negativo há o fato de ter sido aprovada em um clima nacionalista, dificultando reformas econômicas necessárias, e também seu detalhamento excessivo, entrando em questões que não são do âmbito constitucional. Isso aconteceu porque no Brasil não se acredita, ou não se acreditava, que as leis vão ser executadas; assim, os constituintes quiseram pôr na Constituição tudo que se considerasse justo.

Afinal, o que vem a ser uma democracia?
Existe um consenso básico a respeito do que seja democracia: é o regime em que aqueles que dirigem a nação recebem, por meio da eleição, um mandato popular. A idéia de que a soberania reside no povo e é ele quem elege seus representantes distingue a democracia de qualquer regime autoritário, totalitário. Ela também significa a garantia da livre expressão das idéias – não existe democracia onde existe, por exemplo, censura à imprensa. Inclui ainda deveres dos cidadãos, há uma responsabilidade com relação à sociedade e limites que não podem ser ultrapassados. A discussão maior consiste em saber se os aspectos sociais se incluem na definição de democracia. Há quem estenda o conceito e diga: não, democracia sem igualdade, sem maior acesso da população a todos os direitos de educação, saúde etc. não chega a ser democracia.

Como ficou o quadro partidário após a redemocratização?
A principal mudança foi a cisão no PMDB, devido à insatisfação de alguns de seus membros (Montoro, Covas, Fernando Henrique, entre outros) com os rumos que o partido estava tomando. Formou-se o PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira. Ocorreram outras alterações que correspondem mais a mudanças de nome do que a outra coisa.

Como foi a sucessão de Sarney?
A disputa se concentrou, no segundo turno, entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor. Lula vinha do movimento de luta dos trabalhadores do ABC, tinha sido um importante líder sindical e era o grande nome do PT. Sua figura contrastava com a de Collor, homem da elite mas sem apoio de um grande partido, que utilizou com eficácia o marketing e temas de moralização. Afirmava, por exemplo, que iria combater os altos vencimentos de um setor do funcionalismo público, que qualificava como “marajás”, e com isso iludiu muita gente. Com trunfos desse tipo e o apoio da mídia mais poderosa, acabou se elegendo presidente da República.

Como se iniciou o governo Collor?
A inflação estava num nível insuportável, a economia, totalmente desorganizada, e era crença geral que ele iria mexer nesse quadro. E o que ele tentou foi de uma ousadia imensa: o seqüestro, ou, para sermos mais benevolentes, o congelamento dos depósitos bancários, abrangendo a poupança e outras formas de investimento. O Plano Collor provocou um choque na população. Houve queda pronunciada da inflação, mas logo ficou claro que não era um plano milagroso e conduziu o país a dificuldades ainda maiores. Além disso, a mídia começou a desvendar o alto grau de corrupção instalado no governo, mobilizando a população contra isso. Surgiu o movimento dos “caras-pintadas”, integrado principalmente por estudantes de classe média, e o pedido de impeachment do presidente foi aprovado pelo Congresso.

Qual a lição a ser tirada do impeachment de Collor?
Tiramos do impeachment uma imensa e positiva lição, que nos leva a um otimismo razoável sobre a vida política brasileira. Foi um episódio de substituição de um presidente da República pela via legal, sem golpe militar, sem manobra palaciana, uma coisa excepcional no quadro da América Latina. Sem negar o vulto da corrupção, personificada na figura de PC Farias, é preciso levar em conta que o impeachment foi facilitado pelo fato de Collor não ter sustentação nas grandes elites do país. Ele acabou isolado, com seu estilo olímpico, julgando-se acima de críticas. O impeachment de Collor foi antecedido por uma grande mobilização social nas maiores cidades do país. Mas é preciso considerar que o movimento das Diretas Já foi bem mais amplo, abrangendo praticamente o conjunto da população.

Como foi a sucessão de Collor?
Mais uma vez um vice-presidente assumiu o poder. Neste caso, não houve a morte de um presidente, como no mandato de Sarney, mas um impeachment, inédito na vida política do país. Itamar Franco vinha dos quadros do velho MDB mineiro e encontrara uma chance de escalar a política ao se candidatar a vice de Collor. Fez um governo de transição e implantou a URV (Unidade Real de Valor), um passo absolutamente necessário para instituir o Plano Real. Em minha opinião, essa medida e a escolha de Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda foram os méritos do governo Itamar.

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