Do outro lado, estavam os comunistas ligados à União Soviética. O principal chefe comunista foi Luís Carlos Prestes, que rompera com os tenentes em maio de 1930 e viria a ser o maior líder do Partido Comunista do Brasil. Os comunistas pregavam uma revolução denominada democrático-burguesa, como etapa para uma revolução socialista. Também eram nacionalistas, mas enquanto os integralistas se aproximavam principalmente da Itália, os comunistas aderiram à União Soviética. Também se distinguiam dos integralistas por uma atitude mais aberta no plano do comportamento (por exemplo, a defesa do divórcio), pela defesa das minorias e pela denúncia do racismo.
Como esses movimentos se relacionavam com Getúlio?
Os integralistas apoiaram Getúlio na esperança de acumular forças dentro do governo, com o qual aliás tinham afinidades. Os comunistas, por sua vez, formaram a Aliança Nacional Libertadora (ANL), que pretendia ser uma grande frente popular contra o governo e a favor de reformas significativas. Getúlio mandou fechar a ANL e instituiu uma legislação repressiva, a Lei de Segurança Nacional. Na ilegalidade, os comunistas se insurgiram, em novembro de 1935, em um movimento militar mal coordenado que acabou em fracasso. Existem fortes indícios de que o governo Vargas já sabia dos preparativos da insurreição, tendo recebido informações do serviço secreto inglês. O fato é que essa revolta serviu para Getúlio desfechar uma onda de repressão.
Quais as conseqüências dessa onda de repressão?
Getúlio e a cúpula do Exército usaram a insurreição como pretexto para preparar o caminho da instalação de um regime autoritário, que se distinguiria obviamente dos comunistas, mas também dos integralistas. A expectativa destes era chegar ao poder pela Aliança Integralista Brasileira, transformando-a em um partido único que serviria de base para um regime semelhante ao fascismo. Mas não eram estas as intenções do governante, para quem a existência de partidos levaria à desorganização do país. Entre novembro de 1935 e 10 de novembro de 1937 criaram-se todas as condições para que o governo Vargas, eleito legalmente pelo Congresso, de forma indireta, se transformasse num governo ditatorial, por meio do golpe que instituiu o Estado Novo – uma operação realizada praticamente sem resistência.
Como o integralismo se firmou?
Uma das razões do prestígio do movimento integralista se relaciona com a ascensão das ideologias antiliberais, que ganharam força após o início da crise mundial de 1929. Na época, parecia que o capitalismo e as idéias liberais estavam destinados a desaparecer. Ganharam prestígio as idéias autoritárias, o totalitarismo de esquerda e de direita, os sonhos revolucionários. Para muitos, o integralismo parecia um eixo seguro, em defesa da ordem, imbuído de patriotismo, de respeito a Deus e à família, contra os riscos desagregadores dos comunistas, vistos como ateus, inimigos da família e da propriedade. Essas coisas encantaram setores da classe média brasileira.
E com relação aos comunistas?
Em parte, os comunistas ganharam prestígio por sua identificação com a União Soviética, país que muitos acreditavam, ilusoriamente, ser o reino da liberdade e da igualdade. Ao mesmo tempo, havia os atrativos da mudança de costumes, da possibilidade de divórcio, da luta contra o imperialismo e o racismo, a favor do nacionalismo.
O Estado Novo teve apoio popular?
O Estado Novo foi a primeira ditadura do Brasil, embora fosse falsamente apresentado como a verdadeira democracia. Suprimiram-se as eleições, os partidos e a liberdade de expressão. Introduziu-se a censura e a tortura a presos políticos, em especial comunistas, tornou-se prática corrente. Mas o Estado Novo tinha apoio popular, mesmo silencioso. Lembremos das medidas favoráveis aos trabalhadores urbanos. Habilmente, Getúlio captou a seu favor as comemorações do 1º de maio, um dia de luta, aproveitando para reforçar os laços simbólicos com a classe trabalhadora. Em seu discurso solene, que começava com a expressão: “Trabalhadores do Brasil”, anunciava algum novo benefício. Havia aquela expectativa: o que Getúlio vai anunciar no 1º de maio? O Estado Novo, um regime repressivo, que estabeleceu a tortura como método, ganhou a simpatia da massa popular. É preciso entender essas diferenças para não fazer uma história em preto-e-branco, quando ela não é nem preta, nem branca, mas tem muito cinza, muita mistura de cores.
Qual era o quadro da política externa?
O mundo estava dividido em grandes potências e o Brasil tinha de tomar uma posição. O regime getulista se aproximara dos países totalitários, Alemanha e Itália, por razões ideológicas e por interesses comerciais: os alemães, por exemplo, compravam o algodão brasileiro e quebravam a hegemonia dos Estados Unidos. No governo havia os que defendiam a aproximação com Alemanha e Itália e os partidários de Inglaterra, França e Estados Unidos. Com o início da guerra, em 1939, foi preciso fazer uma opção; Getúlio, que mostrara muita simpatia pela Alemanha e pela Itália, acabou pendendo para as forças democráticas, por razões de ordem prática. Ele percebeu o significado da posição do Brasil no mundo ocidental, com a enorme influência do “grande irmão do norte”, os Estados Unidos. Fugir desse campo seria uma aventura extremamente arriscada, e em poucos meses, com a Segunda Guerra Mundial já iniciada, ele se decidiu a favor das potências aliadas. As investidas dos alemães contra a Marinha brasileira apressaram a ruptura de relações com os países do Eixo – Alemanha, Itália e depois Japão – e finalmente houve a declaração de guerra contra esses países. Em um clima patriótico, criaram-se condições para que o Brasil mandasse a Força Expedicionária Brasileira, a FEB, para lutar na Itália. Quando os “pracinhas” retornaram em 1945, no fim da guerra, foram recebidos como heróis nas cidades brasileiras.
O que determinou a crise do regime?
O Estado Novo foi um período curto, de novembro de 1937 até 1945, e seu fim resultou de uma conjugação de fatores externos e internos. A vitória das forças democráticas na Segunda Guerra deu novo prestígio à democracia no Brasil, pelo menos nos setores da sociedade que tinham mais voz: jornalistas, intelectuais e profissionais liberais. Esse clima ajudou a engrossar a oposição ao Estado Novo e criou a necessidade de preparar o caminho para a democratização. Sensível a esse novo quadro, Getúlio no entanto fez uma jogada arriscada: tentou se apoiar na mobilização popular, como nunca fizera antes. Além dos setores políticos e de trabalhadores que sempre haviam estado a seu favor, buscou também se aproximar dos comunistas, que estavam na ilegalidade, muitos deles presos. Começou o movimento chamado “queremismo” (nome tirado do slogan “queremos Getúlio”), reivindicando a convocação de eleições para uma constituinte, mas mantendo Getúlio no poder até que se promulgasse a nova Constituição e fossem feitas novas eleições.
Como terminou o Estado Novo?
A cúpula militar, que até então apoiara o ditador, não aceitou o rumo dado pelo movimento queremista e depôs o presidente, com a participação de grupos da elite civil. Vargas conservava intacto seu prestígio junto à população e a determinados setores, como a maioria dos industriais. Assim, os que o depuseram não pretenderam colocá-lo fora do jogo político, mas sim tirá-lo do poder central, sem cortar todas suas asas. Getúlio foi deposto em outubro de 1945 e substituído provisoriamente pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, o ministro José Linhares. Seguiram-se as eleições gerais, em dezembro daquele ano.
Anterior
|