E quanto ao desenvolvimento urbano?
São Paulo cresceu a taxas elevadas, também no Nordeste algumas cidades se desenvolveram, mas o Rio continuou a ser a única metrópole brasileira. Ali estavam a presidência da República, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Foram abertas avenidas, como a Rio Branco, a paisagem urbana sofreu muitas transformações. Os moradores pobres do centro foram empurrados para os subúrbios, ou para as favelas, que começavam a se formar nos morros. A industrialização mudou a fisionomia das cidades. Com o aumento do consumo de tecidos baratos nos primeiros anos do século 20, foram criadas algumas grandes fábricas têxteis e, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e em parte Recife e Salvador, surgiram as chamadas fabriquetas de fundo de quintal.
Qual a influência dos imigrantes na vida política do país?
Os imigrantes trouxeram muitas idéias que podem, genericamente, ser identificadas como socialistas. Entre elas, se destacou no Brasil o anarquismo, que formou grupos pequenos, mas muito respeitados nos meios operários. A corrente anarco-sindicalista pretendia reforçar o papel do sindicato, transformando-o em um órgão revolucionário capaz de, por meio de uma greve geral, fazer uma revolução social. Na prática, os anarquistas defenderam direitos dos trabalhadores que nada tinham de revolucionários, como oito horas de jornada de trabalho e igualdade de salário para mulheres e homens. A corrente socialista, bem menor, e formada em geral por profissionais liberais, defendia a criação de partidos políticos de esquerda que pudessem ir transformando a sociedade capitalista, aos poucos, para chegar ao socialismo.
Como evoluiu o movimento anarquista?
Depois da Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918, houve a crise do anarquismo, tanto no Brasil quanto em outros países. Os comunistas, que dirigiram a Revolução Russa de 1917, sustentavam que o caminho para o socialismo passava pelo Estado, pela chamada ditadura do proletariado, e nisso se opunham aos anarquistas, que tinham horror ao Estado. A influência da Revolução Russa e o impasse do movimento anarquista no Brasil deram origem a uma cisão no movimento social. Dessa cisão nasceu o Partido Comunista do Brasil (PCB), em 1922. Em seus primeiros tempos, o PCB era um agrupamento pequeno, com pouca influência nos meios operários. Seu crescimento ocorreria nos anos 30.
De que modo o capital internacional participava da economia brasileira?
Os investimentos estrangeiros estiveram presentes de várias formas, na área de seguros, nos portos, em serviços, mas seu papel mais importante foi provavelmente fornecer recursos para o pagamento do serviço da dívida externa e para investimentos no país. Nos negócios do café, o capital estrangeiro atuou de duas formas. A exportação esteve praticamente nas mãos de grandes firmas estrangeiras – americanas, alemãs e inglesas. Além disso, determinados grupos financeiros forneciam recursos para valorizar o produto: se o preço do café no mercado internacional estivesse muito baixo, ele era retido nos portos, mas o produtor era pago com recursos obtidos no exterior.
O que foi o movimento tenentista?
Foi um movimento de insatisfação dentro do Exército e, em escala bem menor, também na Marinha, contra o sistema oligárquico, marcando o início da crise da Primeira República. Muitos dos integrantes eram tenentes, que sonhavam com uma república centralizada, com algumas tintas nacionalistas, que não favorecesse determinados estados. Ao pegarem em armas, eles criaram um precedente grave, do ponto de vista das elites que controlavam a Primeira República. Iniciaram uma série de revoltas: em 5 de julho de 1922 foi a do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro; depois, em outro 5 de julho (1924), em São Paulo, os tenentes chegaram a tomar a capital do estado. Da junção da revolta que estourou em São Paulo com um movimento do Rio Grande do Sul surgiu a marcha dos tenentes conhecida como Coluna Prestes, quando um contingente rebelde percorreu cerca de 24 mil quilômetros do território brasileiro, chefiado por Luís Carlos Prestes, que viria a ser um líder comunista, e por Miguel Costa, que tinha sido da Força Pública de São Paulo.
Foi nesse cenário que surgiu a figura de Getúlio Vargas?
Uma desavença até certo ponto inesperada entre as elites se transformou em uma bola de neve, por ocasião da sucessão presidencial de 1930. O presidente da República, o paulista Washington Luís, lançou como candidato oficial o presidente de São Paulo (como se dizia na época), Júlio Prestes. Isso rompia o acordo de revezamento entre São Paulo e Minas, colocando sucessivamente dois paulistas na presidência da República. Foi o estopim do desentendimento. Rompendo a aliança com São Paulo, Minas se aliou ao Rio Grande do Sul e lançou o nome de Getúlio Vargas – que, embora não fosse um radical, era uma candidatura de oposição. A oposição, reunida na Aliança Liberal, representava interesses econômicos que não estavam diretamente vinculados ao café e, o mais importante, se voltava contra os chamados “males da República”. Para evitar a fraude eleitoral, defendia o voto secreto; erguia-se também contra a falta de justiça e o analfabetismo.
Como evoluiu essa oposição?
Inconformado com a derrota nas eleições de 1º de março de 1930, um setor da Aliança Liberal, formado principalmente pelos mais jovens, resolveu preparar uma revolução. Mas isso requeria uma força armada e, então, os oposicionistas foram buscar velhos inimigos, os tenentes, que a essa altura estavam no exílio ou na sombra. Após alguma hesitação, a maioria dos tenentes aceitou a aliança com os inimigos de outrora – com exceção de Luís Carlos Prestes. Em maio de 1930, o líder lançou um manifesto, no qual afirmava que tudo não passava de uma luta entre dois imperialismos, o americano e o inglês. Recusou o acordo e se declarou partidário do comunismo. Os tenentes aliados à oposição civil, por sua vez, articularam um movimento revolucionário para impedir a posse de Júlio Prestes e colocar Getúlio Vargas no poder. Assim eclodiu, em 3 de outubro de 1930, a revolução que poria fim à Primeira República.
Como foram as reações à revolução?
Houve alguma resistência, principalmente em Belo Horizonte, Minas Gerais. No Nordeste, sob a chefia de Juarez Távora, a revolução contou com apoio popular e triunfou rapidamente. No Rio Grande do Sul uma coluna formada por Exército e brigada militar avançou até a capital da República; chegaram vitoriosos ao Rio de Janeiro e realizaram um ato simbólico, amarrando seus cavalos num obelisco da avenida Rio Branco.
Quais as causas principais da Revolução de 30?
Várias causas explicam o surgimento do movimento revolucionário de outubro de 1930. Há quem lembre o quadro internacional, com a crise econômica mundial de 1929. Na realidade, a crise teve pouco efeito, nos primeiros meses de 1930; o grande impacto da crise viria depois da Revolução de 30. Devemos prestar atenção aos fatos políticos internos que levaram à revolução. Em primeiro lugar, a crise gerada pela insistência de Washington Luís em lançar um candidato paulista se desdobrou por caminhos inesperados. A derrota de Getúlio não foi assimilada e um fato importante para incentivar a alternativa revolucionária foi o assassinato de um político da oposição na Paraíba: João Pessoa, presidente do estado. Durante muito tempo foi discutida a motivação política dessa morte. Hoje se sabe que João Pessoa foi morto em conseqüência de uma disputa amorosa, uma questão pessoal. Seja lá como for, houve um impacto político, pois o clima de indignação em todo o país serviu de suporte aos revolucionários.
Surgiria uma nova República?
Em outubro de 1930 caiu a Primeira República, que os revolucionários logo chamaram de República Velha, porque surgia uma República nova, cercada de esperanças. Getúlio Vargas, em uniforme militar, foi levado ao Catete e lá começou o governo Vargas, enquanto o presidente deposto, Washington Luís, ia para o exílio.
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