Os portugueses conseguiam manter sua hegemonia na Colônia?
Houve uma série de expedições de outros países com o propósito de conquistar a Colônia. Os franceses, por exemplo, estiveram no Rio de Janeiro e depois no Maranhão. Mas a presença mais importante foi sem dúvida a dos holandeses. Eles ocuparam Salvador e foram obrigados a se retirar; mas em uma segunda incursão, desta vez em Pernambuco, permaneceram muito mais tempo.

Por que os holandeses vieram ao Brasil?
Isso tem muito a ver com a união das Coroas espanhola e portuguesa, sob o comando da primeira, a partir de 1580. Como havia uma disputa entre a Espanha e a Holanda, a partir da união Portugal também se tornou inimigo dos holandeses. Os holandeses tinham dois objetivos básicos: conquista de parte do território brasileiro e controle do comércio de escravos. Assim, ao mesmo tempo que ocuparam Pernambuco avançaram em direção à costa ocidental da África. A civilização holandesa no Brasil foi muito significativa e deixou vestígios permanentes, principalmente como resultado do governo de Maurício de Nassau. Acabaram sendo militarmente derrotados e foram expulsos da Colônia.

Qual a reação dos colonos à presença holandesa?
Os holandeses foram combatidos pelos colonos que aqui estavam, e há até quem diga, com algum exagero, que dessa luta se originou o sentimento de brasilidade. Uma minoria de colonos endividados com os portugueses buscou se juntar aos holandeses, esperando obter o perdão de suas dívidas. Mas de modo geral foi a gente da terra que primeiro resistiu aos holandeses; só depois Portugal veio em socorro da Colônia.

Além do Nordeste, qual outra região sobressaía no Brasil da época?
Um dos fatos interessantes no povoamento do Brasil durante o período colonial é que a região Centro-Sul era isolada, pouco importante, na qual viviam muitos índios, uma população rústica. Aí se falava a chamada língua geral do Brasil, que era uma espécie de tupi adaptado à fala portuguesa. Quando a gente pensa no Brasil de hoje, é difícil imaginar que o Nordeste era a área mais avançada, e o Centro-Sul a mais atrasada.

E quanto à formação étnica do povo brasileiro?
Cabe muita coisa na expressão “povo brasileiro”, mas de qualquer maneira é nítido o cruzamento de raças – branco, índio, negro. Por que isso? O português, quando veio para essa terra imensa, não tinha à sua disposição mulheres brancas com quem pudesse casar, ou simplesmente se amasiar. Então foi muito freqüente o cruzamento de etnias, que deu origem ao povo mestiço que caracterizou o Brasil, até a imigração em massa, no final do século 19.

Quais partes do Brasil os portugueses conheciam no século 17?
O Brasil do século 17 ainda era uma colônia pouco explorada. Mas os portugueses já não se arrastavam pela costa como caranguejos, eles avançavam terra adentro. Nesse avanço, os bandeirantes desempenharam um papel importante, combinando a ocupação da terra com a violência no apresamento dos indígenas. Em meados do século 18, os portugueses realizaram um sonho que perseguiam desde sua chegada ao Brasil: a descoberta de riquezas minerais. Isso se deveu às expedições dos bandeirantes.

Qual o resultado da descoberta de jazidas?
O ouro transformou as relações da Coroa portuguesa com outros países da Europa e mudou a paisagem social da Colônia. Do ponto de vista social, a civilização do ouro está ligada à vinda de portugueses em maior escala, em uma verdadeira corrida em busca desse metal. Com isso, surgiram muitas cidades, envolvendo tanto gente rica quanto gente pobre. A civilização barroca, as igrejas, as artes, a obra de Aleijadinho, tudo isso foi produzido essencialmente pela civilização do ouro. Embora as riquezas fossem geradas na Colônia, o ouro era enviado em grande escala para a Metrópole, beneficiando também a Inglaterra, de quem Portugal era dependente. Ao longo do tempo, o ouro foi ficando escasso e as exigências da Coroa cresceram, sob a forma de impostos cada vez mais pesados. Essa circunstância gerou uma série de atritos, e teve algo a ver com o surgimento da Inconfidência Mineira.

O que gerou a Inconfidência?
Nos últimos vinte anos do século 18 surgiram no Brasil alguns movimentos de rebeldia contra a Coroa, dos quais o mais conhecido foi a Inconfidência Mineira. Essa tentativa de revolta, que na realidade nunca chegou a explodir em Minas, foi uma situação em que a elite local, que estava ganhando influência, se sentiu cada vez mais posta de lado pela administração portuguesa. Além disso, as dívidas contraídas com Portugal geravam um clima de insatisfação na região de Minas Gerais, num período já de decadência do ouro e também dos diamantes.

Houve outros movimentos de revolta?
Além da Inconfidência Mineira, ocorreu uma série de revoltas contra Portugal a partir de fins do século 18. Por exemplo, a Conjuração dos Alfaiates, na Bahia, que em termos de composição social era mais popular do que a Inconfidência. Mas os episódios de Minas foram os mais importantes. Basta ver a atitude da Coroa, que montou um grande processo contra os inconfidentes, culminando com a encenação na qual Tiradentes foi enforcado, no Rio de Janeiro.

Como era o Brasil no final do século 18?
Haviam ocorrido muitas transformações. A economia era diversificada, com açúcar, ouro, gado etc. Por outro lado, existiam áreas de disputa territorial. Por exemplo, as fronteiras no sul viviam em contínua disputa com os espanhóis. Enfim, não era ainda o Brasil de hoje, embora já se aproximasse deste, do ponto de vista geográfico.

Quando o sistema colonial entrou em crise?
No começo do século 19, por um conjunto de razões. Teoricamente, todas as transações comerciais da Colônia com o mundo só poderiam ser feitas por intermédio da Metrópole. Na prática, isso furou. Portugal entrou em decadência e teve de aceitar a presença de outras potências, particularmente a Inglaterra, no comércio brasileiro. O sistema colonial trazia embutido o tráfico de escravos. Quando a Inglaterra entrou em um surto industrial e buscou criar um mercado de mão-de-obra livre, o tráfico de escravos começou a ser quebrado pelos ingleses. Ao mesmo tempo, a Inglaterra tratava de liberar o comércio internacional para poder extrair dele plenas vantagens, sem depender de intermediários. Essas transformações vieram acompanhadas de um movimento de idéias liberais, tendo como objetivo alcançar a autonomia, e mesmo a independência das antigas colônias.

O que mudou com a chegada da família real?
A vinda da família real para o Rio de Janeiro, no começo do século 19, foi um fato político da maior importância para a Independência do Brasil. No jogo das potências da Europa, Portugal estava acossado pelos franceses, por Napoleão, que invadira seu território. Ao vir para a Colônia, Dom João VI e sua corte passaram por Salvador e se instalaram no Rio de Janeiro, que naquela altura já era a capital. Há quem diga, numa frase muito feliz, que de certo modo a Metrópole virou colônia e a Colônia virou metrópole. Com a presença da corte, o Rio de Janeiro se transformou, em muitos níveis – arquitetura, pintura, habitação, novos costumes etc. No plano das relações internacionais, um dos fatos mais importantes relacionados com a presença de Dom João VI foi o reconhecimento, com todas as letras, da liberalização do comércio internacional. Quer dizer, o Brasil teve seus portos abertos às nações amigas – e a gente deve pôr isso entre aspas, porque nesse caso falar em “nações amigas” se referia basicamente à Inglaterra. A partir daí a Inglaterra pôde ter legalmente acesso direto aos portos brasileiros.

E com a volta de Dom João VI para Portugal?
A forma pela qual foi decidida a volta de Dom João VI para Portugal influiu no processo de Independência do Brasil. A permanência de seu filho, o futuro Dom Pedro I, representou um passo para a transição de colônia a país sem grandes abalos, conservando-se a forma monárquica.

Como ocorreu a Independência?
No processo da Independência existiram duas linhas. Uma mais revolucionária, de transformação, que aparece nitidamente na Revolução de 1817, em Pernambuco, com a presença de Frei Caneca e outras figuras. Outra linha, a conservadora, queria fazer uma transição “transada”, sem muitos abalos. Esta linha, das elites fluminenses e da corte no Rio de Janeiro, foi a que triunfou.

Que idéias eram defendidas para um novo Brasil?
Logo depois da Independência, formaram-se “partidos”, entre aspas, pois não eram organizações como as que conhecemos hoje. Basicamente, eram correntes de opinião das elites situadas nos grandes centros, em particular no Rio de Janeiro. Um setor conservador queria manter a forma monárquica e, além disso, concentrar o máximo de poderes nas mãos do primeiro imperador, Dom Pedro I. Era a tendência absolutista, que queria dar poderes absolutos ao rei. Contra essa corrente estavam os monarquistas liberais. Eles queriam reduzir o poder do imperador e dar força à Assembléia Geral Imperial – que hoje poderíamos chamar de Congresso –, convertendo-a em um órgão que controlasse aquele poder. Essa gente queria, ao mesmo tempo, garantir as liberdades públicas, as liberdades de expressão e de manifestação de pensamento.

Anterior

 

Entrevista com o
Prof. Boris Fausto

Colônia
Parte 1
Parte 2

Império
Parte 1
Parte 2

República
Parte 1
Parte 2

Era Vargas
Parte 1
Parte 2

Brasil Democrático
Parte 1
Parte 2

Regime Militar
Parte 1
Parte 2

Redemocratização
Parte 1
Parte 2