Por que Portugal foi o país pioneiro na expansão marítima?
Por várias razões. Uma, de ordem interna, foi o fato de que muito cedo Portugal se transformou numa monarquia centralizada, e a Coroa portuguesa teve recursos suficientes para empreender uma grande aventura, em busca de novas terras. Além disso, os portugueses aprenderam com os genoveses as técnicas de navegação e começaram a desenvolver essa atividade. Outro fator é a posição geográfica de Portugal, numa espécie de ponta da Europa, facilitando para os portugueses a tarefa de se lançar pelo oceano Atlântico afora.
O que os portugueses pretendiam, ao sair de sua terra?
Certamente, foram em primeiro lugar buscar benefícios materiais. As grandes atrações naquele momento eram o ouro e as especiarias. Além de dar sabor, as especiarias também mascaravam o gosto ruim dos alimentos, que naquela época apodreciam facilmente. Então, eles queriam pimenta, cravo-da-índia… Ao mesmo tempo, havia um espírito de aventura, o desejo de conhecer novos mundos, novas terras, a expectativa de encontrar coisas que as pessoas nem imaginavam. Tecnicamente, as expedições portuguesas pelo mar eram muito avançadas para a época, inclusive com o navio leve e extremamente eficiente que haviam inventado, que era a caravela. Foi com a caravela, numa grande expedição, que Pedro Álvares Cabral acabou avistando a terra brasílica nas costas da Bahia.
E como foi a chegada ao Brasil?
O contato da expedição de Cabral com os indígenas é algo que a gente não pode reproduzir, esta é uma limitação do historiador, de qualquer um de nós. Mas, embora seja impossível reconstituir tudo isso, existem os relatos que ajudam. A carta de Pero Vaz de Caminha, por exemplo, é um documento fundamental. Ele era um escrivão da armada de Cabral, precisava relatar os fatos, e foi isso que fez, narrando com riqueza de detalhes os primeiros contatos com os índios, a impressão causada pela natureza, a primeira missa etc.
A descoberta do Brasil teria sido um acaso?
Houve e ainda há muita discussão a respeito do “achamento” do Brasil. Os grupos se dividem entre a tese da chamada intencionalidade e a tese do acaso. Mas essa questão não é tão importante. O fato talvez mais relevante é que, quando os portugueses chegaram ao que viria a ser o Brasil, não tinham idéia da extensão das terras que encontraram. E não lhe deram muita importância, do ponto de vista econômico.
O que foi o Tratado de Tordesilhas?
Foi uma linha imaginária com que Portugal e Espanha dividiram o mundo a oeste da península Ibérica, onde os dois países estavam situados. A respeito desse assunto, existe uma discussão sobre a possibilidade de os portugueses conhecerem terras que ainda não ocupavam, porque na realidade o Tratado de Tordesilhas beneficiou mais Portugal do que a Espanha.
Como foram os primeiros contatos entre os portugueses e os índios?
Hoje, evita-se falar em descobrimento do Brasil, há quem até encontre uma saída usando essa palavra esquisita, “achamento”. Mas o Brasil não foi nem descoberto nem achado, não era uma terra vazia à qual os portugueses chegaram. Na realidade era uma terra ocupada pelos índios. Os portugueses tomaram posse dessa terra e daí começou uma história de contatos e de muita violência.
Como viviam esses índios?
Estavam divididos em muitas tribos. Hoje é comum falar em tupi-guarani como se fosse uma coisa só, mas mesmo os tupis e os guaranis eram diferentes. Havia outras tribos muito guerreiras, como a dos aimorés, e por aí vai. Não havia uma grande nação indígena na costa do que viria a ser o Brasil, e sim uma série de tribos que ora conviviam, ora entravam em luta.
Qual o papel da Igreja Católica no Brasil colonial?
O Estado português teve com relação à Igreja uma posição de certa dominância. Era o sistema chamado de padroado. O padroado era uma espécie de entendimento não-escrito entre a Coroa portuguesa e a Igreja, pelo qual a Igreja tinha poderes espirituais, mas ao mesmo tempo a Coroa tinha um controle na nomeação de eclesiásticos e era também responsável pelo pagamento do clero, dos padres que vinham para o Brasil – não das ordens religiosas, mas do chamado clero secular. A Igreja dedicava-se à salvação das almas, à conversão dos índios ao catolicismo. Para isso, era preciso organizar as aldeias, ensinar a religião católica e não destruir a população indígena. Mas houve muitos choques entre a Igreja e os colonos no Brasil, porque os colonos tinham outro interesse: o de explorar o trabalho indígena.
E as capitanias hereditárias?
Nos primeiros tempos, os portugueses estavam mais interessados no comércio com a Índia e pensaram no Brasil como uma espécie de ponto de parada nessa rota. Mas à medida que outros povos começaram a chegar, tentando ocupar a terra, eles se viram obrigados, por razões mais políticas do que econômicas, a encontrar uma forma de colonização. A primeira forma de colonização foram as chamadas capitanias hereditárias. Os donatários de capitanias tinham poderes no papel, mas estavam limitados por muitas dificuldades, e precisaram enfrentar uma série de problemas. As capitanias fracassaram, e daí a Coroa portuguesa teve a idéia de instituir um governo geral no Brasil.
O que foi esse governo geral?
O governo geral correspondeu à necessidade de se ter um poder que centralizaria a administração da Colônia. Mas isso ficou na intenção. O governador geral tinha um raio de ação pequeno, na Bahia, no Nordeste. Nas outras regiões do país ele mandava muito pouco, até o século 18.
Qual a extensão da efetiva ocupação da Colônia?
Esse Brasil dos primeiros tempos pode ser definido pelo que diz um cronista importante, Frei Vicente do Salvador; segundo ele, os portugueses a princípio se arrastavam pela praia como caranguejos. O que quer dizer isso? Que eles conseguiam ficar apenas na praia, e concentrados no litoral do Nordeste. A ocupação do interior foi um processo lento, que só se completou ao longo dos séculos.
Por que os portugueses recorreram à escravidão?
Os portugueses tinham uma experiência de mão-de-obra escrava na costa da África e haviam levado muitos negros para Portugal, para realizar serviços domésticos. No início, pensaram em escravizar os índios, que, curiosamente, chamavam de “negros da terra”. A experiência de escravização da mão-de-obra indígena levou bastante tempo, mas em grandes linhas fracassou, por várias razões. Uma delas é que os índios estavam em seu próprio território, eles conheciam bem as saídas para evitar o apresamento. Uma segunda razão se encontra na resistência dos índios ao gênero de trabalho que os portugueses queriam lhes impor, porque sua experiência prévia não era de trabalho regular, pesado; viviam pescando, coletando frutos, fazendo roça, de uma maneira muito mais livre. Pela própria natureza da sua experiência, os índios tendiam a resistir tenazmente à escravidão. Além disso, uma verdadeira catástrofe demográfica: os índios não estavam preparados para o contato com o homem branco, para resistir a vírus e bactérias que produzem doenças às vezes corriqueiras para os europeus. Houve uma grande mortandade causada por doenças como a gripe, por exemplo. Por tudo isso, os portugueses perceberam que a escravização indígena não dava certo e começaram a trazer negros africanos como escravos. A escravidão dos índios praticamente desapareceu, substituída pela africana – mas isso não quer dizer que a situação indígena deixasse de ser muito precária.
Quando os portugueses se preocuparam com a questão da mão-de-obra?
Quando perceberam que era viável explorar a Colônia do ponto de vista econômico se concentraram principalmente na produção de açúcar, plantando cana. Tinham uma longa experiência nas ilhas da costa africana, e conheciam muito bem o negócio do açúcar. Só que para tocar uma grande fazenda de plantação de cana necessitavam de braços, e não havia condições de atrair trabalhadores livres. Foi aí que começaram a tentar utilizar os índios, sem êxito, e depois a explorar o tráfico africano. Mas o escravo não era importante apenas como mão-de-obra. O negócio de traficar escravos era em si extremamente valioso; em certos períodos da história brasileira, muitas riquezas foram geradas pelo comércio de escravos, e não pela produção baseada nesse tipo de trabalho.
De que modo esses escravos se relacionavam entre si?
Os escravos vieram em condições penosas. Muitos morriam na travessia. Ao chegar, se sentiam perdidos, pois vinham de várias regiões da África e em geral não se conheciam – justamente o que os senhores queriam, para evitar algum grau de organização. Isso foi mudando à medida que se formavam gerações de escravos que integravam a vida da Colônia, apesar da sua condição de dependência.
Era comum a resistência dos negros à escravidão?
Dada a extensão do país e a diversidade dos grupos, nunca houve, no Brasil, algo comparável a uma grande insurreição de escravos – como aconteceu no Haiti, no século 18. Mas houve resistência. A forma mais conhecida é o quilombo, uma organização de negros fugidos e de gente marginalizada, criando uma vida alternativa à exploração colonial. Havia outras maneiras menos ostensivas de resistir, no dia-a-dia, como o não-cumprimento de ordens, a lentidão no ritmo de trabalho etc. Vários estudos têm mostrado que os escravos da casa-grande encontravam formas de adaptação e de resistência aos senhores.
O que faziam, no Nordeste, os que não viviam em torno do engenho de açúcar?
Havia os tropeiros no âmbito do comércio, a criação de gado no interior e várias outras atividades ligadas ao mercado interno.
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